20 a 24 de maio de 2019 - FFLCH/USP - Cidade Universitária - São Paulo - SP - Brasil

Palestrantes Convidados

Mesa  Redonda 1 
Arqueologia da repressão e resistência: Materialidade e Patrimônio em áreas de conflito

Elementos para pensar (o impensável): Tortura Elétrica como Paradoxo

Dra. Nicole Fuenzalida

Esta apresentação pretende refletir sobre o conceito de tortura vinculado ao Cone Sul e ao fenômeno do desaparecimento forçado. Particularmente da relação entre tortura e eletricidade como um componente substancial da sofisticação do conhecimento ditatorial e uma parte importante dos sistemas criminosos do mundo até o presente. Desta forma, vamos abordar as expressões paradoxais de tortura elétrica tendo como um caso paradigmático a experiência ditatorial chilena e a repressão desenvolvida por a Direcção Nacional de Inteligência, DINA. Usando dados de vários campos do saber, testemunho de sobrevivente e aspectos contextuais gerais se pretende detalhar desde a ideia de tortura elétrica como um paradoxo aqueles sentidos essenciais que nos permitem abordar o pensamento (o impensável) desse fenômeno da violência política.

Crimeia Alice Schmidt de Almeida

Militante e ex-guerrilheira no Araguaia, iniciou sua militância política na escola secundária. Cursou Enfermagem na Faculdade Ana Nery, no Rio de Janeiro, de cujo curso era presidente do diretório estudantil em 1968. Presa no Congresso de Ibiúna, após o AI-5 entrou para a clandestinidade e, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi para a região onde posteriormente teve início a Guerrilha do Araguaia. Grávida, Criméia ficou responsável pela comunicação entre os guerrilheiros e o partido, por meio de viagens periódicas.

Em uma delas, foi presa em São Paulo pela Operação Bandeirante (Oban) e levada ao DOI-Codi, junto com sua irmã, Amélia Teles, seu cunhado e seus dois sobrinhos. Foi torturada mesmo estando grávida de sete meses.

Em depoimento contou que um suposto médico acompanhava suas torturas. “[Ele dizia:] ela aguenta a tortura nos pés e nas mãos, só não pode espancar a região da barriga.”

Depois, foi levada a Brasília, onde continuou sendo torturada até dar à luz a seu filho, ainda que sob constantes ameaças dos militares de que ele não sobreviveria. Após o parto, Criméia foi impedida de vê-lo e só pôde recuperá-lo 53 dias depois de seu nascimento, desnutrido e dopado.

Em 2005, Criméia e seus familiares moveram uma ação declaratória contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi naquela época, responsabilizando-o pelas torturas sofridas. Três anos depois, a Justiça de São Paulo acatou a ação, e Ustra se tornou o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador. Em 2012, ele teve seu recurso negado. Criméia mantém sua atuação política por meio da Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos.

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Mesa  Redonda 2
Porque uma arqueologia Queer?

Gênero e Poder há 2500 anos: Uma releitura queer da iconografia do Equador Pré-hispânico

Dra. Maria Fernanda Ugalde

As relações de gênero no passado surgem na medida em que avançam as pesquisas arqueológicas que se interessam pelo tema, cada vez mais complexas e diversas. Temas como a discussão das concepções não-binárias de gênero em determinadas culturas ou as variáveis de relações de poder e seu vínculo  direto com as relações de gênero, estão abrindo caminho no mundo da arqueologia. Na conferência se apresentará a proposta de que a iconografia produzida por várias sociedades que se desenvolveram no que é hoje o Equador, há cerca de 2500 anos, mostra um discurso que tende a buscar a naturalização de uma ideologia patriarcal - não predominante até então -, a fim de consolidar um poder instável de elites emergentes lideradas por personagens masculinos. Deste modo, se contrapõem dados empíricos provenientes da arqueologia com teorias sociais que têm proposto a existência de uma relação entre a emergência da sociedade de classes e a opressão feminina. Considera-se que a arqueologia, ao visualizar e discutir esse tema pode contribuir para a desnaturalização do discurso hegemônico androcêntrico imperante no país e no continente.

Por que uma Arqueologia Queer? A política de sexo e gênero na história do presente em desaparecimento

Dra. O. Hugo Benavides

As últimas décadas viram um interesse significativo em compreender as variáveis ​​de sexo e gênero, incluindo as identidades não heteronormativas, no registro arqueológico. Esse interesse particular alimentou muitos projetos de pesquisa interessantes, pedagogias alternativas e conferências interdisciplinares, bem como o desenvolvimento do que foi chamado de arqueologia queer. No entanto, talvez mais do que outras abordagens arqueológicas, uma arqueologia queer também exige um re-questionamento completo de como, por que e para quem nós escavamos o passado. O fato de uma arqueologia queer falar para  comunidades contemporâneas oprimidas e discriminadas nos obriga a interrogar não apenas o conteúdo de nossa disciplina, mas também seus objetivos e metodologia. Como limitamos as formas contemporâneas de discriminação em nossa avaliação do passado? O que outras formas de compreensão de nosso passado sexual nos dizem sobre quem somos hoje? Ainda, o que significa ser um arqueólogo queer em um tempo em que ser diferente em tantos lugares (como os Estados Unidos e o Brasil) é recebido com níveis tão abertos de medo e hostilidade? Estas são apenas algumas das questões profundas que uma arqueologia queer pode nos ajudar a navegar em termos de escavar coerentemente, a que tanto Michel Foucault como Gayatri Spivak se referem como a história do presente em desaparecimento.

Silêncio, O lixo está falando

Bach. Gabby Hartemann

Prezadxs arqueólogxs cisgênerxs,

 

Vocês que estão acostumadxs a falar sobre lixo,

sobre coisas descartadas e quebradas, parem por

um segundo.

 

Agora, é a vez do lixo falar.

 

Sabem, as pessoas trans que são tratadas como o

lixo social da sua sociedade?

 

Aquelxs aí, cujos corpos são violentados,

estuprados, mutilados, assassinados. Aquelxs aí,

cujas existências são ridicularizadas, ignoradas,

deshumanizadas, patologizadas, aniquiladas.

 

Pois é, este lixo social quer falar com vocês,

arqueológxs.

 

Até breve.

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Mesa Redonda 3 
Arqueologias Quilombolas

Silvio Campos

Sílvio Campos é baiano, do município de Cairú, mais especificamente, nascido na comunidade de Galeão localizado no Arquipélago de Tinharé. Guarda Ambiental Licenciado Atualmente ele trabalha como Conselheiro Tutelar e participa da diretoria da Associação de Moradores de Galeão – AMEGA. A vila de Galeão é uma comunidade auto declarada remanescentes de quilombo, desde 2007. Sílvio e outros membros da AMEGA tiveram papel importante no processo de auto-declaração da comunidade junto a Fundação Cultural Palmares. Ainda hoje ele atua como agente fomentador Apaixonado e guardião da história local. Galeão foi palco das primeiras investidas coloniais no país. A igreja da vila data do início do século XVII. A vila é um grande sítio arqueológico formado por igrejas, casarões, ruas, fontes, onde inúmeras peças arqueológicas são encontradas. Além da vila, outros sítios da ilha de Tinharé estão associados a história da Comunidade Quilombola de Galeão. Durante a SIA do MAE/USP, Sílvio terá um espaço de fala para apresentar sua história e a história da comunidade de Galeão. Ele pretende expor sobre sua relação com os sítios e peças arqueológicas, o impacto do Turismo desordenado e seus efeitos junto aos Saberes e costumes dos povos tradicionais.

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Mesa Redonda 4 
Arqueologias Indígenas

Arqueologia-indígena dos povos do rio Mapuera, Oriximiná-PA. Experiência de arqueologia WaiWai

Bach. Jaime Xamen WaiWai

Nós WaiWai somos formados por vários povos com suas línguas e costumes. Estamos transformando e construindo nova língua. Temos nossa própria história que é contada diferente do que conta os karaiwa (“os brancos”). Esta apresentação vai contar a partir de minhas experiências e conversas com velhos Waiwai. Vai contar minha experiência com outros povos indígenas, os Katukina e Tenharins. Quero falar sobre como entendo a arqueologia indígena. Como ela pode ajudar a fazer pesquisa. Arqueologia indígenas como interação com material arqueológico. Outros povos também contam suas histórias de contatos com espíritos. Velhos WaiWai contam que tinham pajés antigamente e todos tinham contato com espirito dos animais. Alma, vidas e conhecimento permanece hoje dentro da memória dos WaiWai, a história, origem, mitologias, cultura. Versão dos indígenas na interpretação dos seus vestígios é interessante para contar o que arqueólogos não conhecem. Estudo arqueológico mostrou que vasilhas existem em duas camadas de terra, antigamente no rio trombetas. Conhecido como Konduri e Pocó, essas cerâmicas tem diferentes anos. Konduri tem antropomorfos e zoomorfos. Os velhos contam que os pajés tinham contatos com espíritos da natureza. Os velhos contam que esses fragmentos de figura de animal indicam contato com os espíritos dos animais. Importante falar de coisas visíveis que estão marcados nesses períodos antigos nos vestígios arqueológicos. Tem ainda muita coisa para saber. O branco tem suas explicações, precisamos ampliar essas explicações com versão indígena. Arqueologia indígena pode ajudar a explicar o que significa realmente o material arqueologico, através de outras abordagens, outras perguntas. Importante isso, nós povos indígenas contar nossas próprias histórias na Amazônia. 

ARQUEOLOGIAS INDÍGENAS: UM OLHAR DO SUL - Patricia Ayala Rocabado

Esta apresentação é uma reflexão sobre o que foi constituído nas últimas décadas como arqueologias indígenas. Eu enfatizo o significado plural deste conceito porque, se bem nos últimos anos tentou responder às perguntas de quais são os Arqueologias Indígenas, o que é que as caracteriza e diferencia de outras arqueologias englobam uma série de abordagens teóricas e metodológicas, cujos principais eixos transversais - embora não sejam os únicos - referem-se à construção de arqueologia com, por e para povos indígenas, além de gerar uma linha de trabalho alternativo que aponta para a refletividade e descolonização disciplinar. Estou interessado em falar sobre os processos da América do Norte e do Sul para tornar visíveis as lutas compartilhada tanto pelos Povos Indígenas quanto pelos arqueólogos destes macrorregiões. Além de analisar nossa história de relacionamentos a partir do ponto de visão do poder e das articulações da arqueologia com os processos sociais e políticos que moldaram e que por sua vez contribuíram para construir. Enquanto os processos norte e sul-americanos diferem em termos das características da colonização européia, as particularidades e a diversidade cultural de suas populações povos indígenas, os processos de construção dos estados-nações e o desenvolvimento do arqueologia, podemos desenhar elementos comuns na história da nossa disciplina que Eu quero me destacar nesta apresentação. Isso me motiva a contribuir com um olhar do sul, situando-me da minha experiência como mulher nascida e criada em um país com alta porcentagem de populações indígenas, Bolívia Para o qual são adicionados meus dezoito anos de treinamento e experiência profissional como arqueólogo no Chile, um país onde as populações indígenas são uma minoria. Meu reflexões também são percorridas por quase uma década de vida em território indígena Passamaquoddy ao noroeste dos Estados Unidos.

Do campo a acadêmica: algumas reflexões sobre arqueologias indígenas

Dra. Camila Jácome

A Arqueologia indígena, assim como tantas outras especialidades da arqueologia, está muito mais para ser lida e praticada no plural do que no singular, tanto no que tange as suas práticas e sujeitos, como no seu desenrolar teórico. Nesta apresentação farei algumas reflexões sobre a pluralidade deste termo a partir de duas experiências. A primeira, de uma pesquisa que realizei, no âmbito do mestrado e doutorado, na região do Rio Trombetas (PA); território tradicional de muitos povos, incluindo os Wai Wai. E a segunda, a partir da minha prática com professora de estudantes indígenas da arqueologia e antropologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

A pesquisa que realizei entre os anos de 2010 a 2017 em território indígena (Jácome 2017), entre os rios Mapuera, Cachorro e Trombetas, buscava conciliar perspectivas dos diversos grupos que habitam essa região e a arqueologia. Essa conciliação feita a partir de leituras etnográficas, de registros históricos e também através do campo, buscou relacionar as perspectivas da arqueologia (a partir de um projeto, do qual minha pesquisa se vinculava), e de alguns coletivos e sujeitos indígenas. Durante a pesquisa, essa relação foi estabelecida por dois meios materiais e imateriais, os objetos cerâmicos e as paisagens humanas.

Palestra de encerramento

Arqueologia colaborativa não é o fim - Chipp Cowell

Há mais de um século, a arqueologia científica foi envolvida nas teias do colonialismo.
Em todo o mundo, as nações extraíram recursos culturais de locais distantes - na maioria das vezes Comunidades indígenas - para construir histórias, construir museus e angariar prestígio e poder para os acadêmicos e as instituições que eles serviram. Na década de 1970, ativistas indígenas e seus aliados começaram a desafiar este modelo e propor alternativas que permitiram comunidades locais para controlar seu próprio patrimônio. Uma das ideias mais importantes para chegar deste movimento foi o de arqueologia colaborativa, que defende uma equitativa partilha do passado entre cientistas e membros da comunidade. A colaboração foi aberta novas possibilidades radicais para a arqueologia. No entanto, chegamos a um momento chave onde devemos considerar como a colaboração também corre o risco de reinscrever o poder colonialista estruturas quando é praticado como um fim em vez de um meio. Colaboração em arqueologia não é uma solução para o colonialismo, mas uma ferramenta que comunidades e estudiosos podem usar no busca da disciplina por um futuro pós-colonial.

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